quinta-feira, 6 de abril de 2017

Mercado de trabalho X perfil

Há pouco mais de um ano não escrevia em meu blog.

Estava aqui pensando o quanto mudanças diversas em nossas vidas interferem também na possibilidade de leituras e escritas.  Mas isso não é por falta de ideias, não é por falta de tantas coisas que penso que não escrevo. É também por falta de tempo.

Mas vamos lá.

Vou tentar compartilhar um pouco da comum realidade entre muitas/os brasileiras/os: estou parte da estatística de desempregados no Brasil há mais de 4 anos.

A ultima vez que atuei dentro da formalidade prevista na Consolidação das Leis do Trabalho - CLT como trabalhadora foi em 2012, em uma empresa de Call Center, onde vendi minha força de trabalho durante 3 anos e 8 meses (naquela época ainda não tinha noção deste termo "força de trabalho").

Aí, depois daquele tempo, na tentativa de reinserção ao mercado de trabalho, aos 30 anos de idade, me deparo com questões ainda mais complicadas: o marcador "geração", a bendita "faixa etária", já não mais convém para o mercado de trabalho que temos, porque este precisa de JOVEM APRENDIZ, pessoas abertas para o aprendizado, inovadoras, criativas, porém, com algumas condições: assumir uma carga horária razoável, cumprindo funções como funcionário efetivo da empresa, no entanto, recebendo uma remuneração que está bem distante de reconhecer a exploração e fragilização desta lógica neoliberal de contratações.

Paralelo a esta reflexão, é tão perturbador e ao mesmo tempo, aliviador (se é que esta palavra existe) saber que em 2017, sendo mãe, graduanda em Serviço Social, com o pé já no finalzinho do curso, o mercado de trabalho também não tem o perfil para me receber. Pois é: sem a intenção de ser pretensiosa, vejo que na verdade, é o perfil do senhor mercado de trabalho que não se adequa ao meu, haja vista que gosto de trabalhos dinâmicos, com direcionamento favorável à classe trabalhadora, vulnerável social e economicamente.

Talvez, para algumas pessoas eu esteja blefando ao escrever isso, já que é é tão difícil ter trabalho, aliás, emprego. Mas é que gostaria muito de poder voltar a este mercado e realizar coisas que façam sentido para minha vida. Que sejam reflexos positivos do que venho tentando construir ao longo dos últimos 7 anos. O contato com tantas histórias de lutas, de resistências de jovens e adultos no Quilombo Educacional Quilombo do Orobu e toda a trajetória na graduação em andamento de Serviço Social não me permitem muito pensar de outra forma.

Será que o senhor mercado de trabalho está disposto a me receber sem cobrar 40 ou 44 horas semanais do meu tempo, para que eu consiga dar conta das minhas necessidades materiais (comer, beber, vestir...), mas também vivenciar minhas necessidades subjetivas com a minha família (curtir o lazer, a cultura, ter tempo para as nossas conversas e brincadeiras juntos) e ainda concluir meu nível superior?

Será que ele aguentaria alguém que questiona seu modus operandi torturador, estressante muitas vezes?

Será mesmo que o rei mercado de trabalho está disposto a abrir mão das suas cobranças de pontualidade, assiduidade mesmo tendo uma funcionária que enfrenta trânsito torturoso muitas vezes; cansada e indisposta por passar algumas noites em claro com a filha porque sente dor ao ter sua gengiva rasgando por conta de mais dentinhos para nascer, pelas febres eventuais, enfim: até que ponto eu é quem não me encaixo no perfil? 

Paralelo a isso, é  angustiante saber que, se antes era uma graduação que me distanciava de um emprego razoável,  que minimamente permita ter uma vida social e não só viver para o trabalho, tem também a cobrança por qualificações diversas, sempre em atualização, sempre gritando para você que alcançou X mas não atendeu a Y. 

É possível que esta não seja a sua realidade, cara/o leitor/a. Que massa se for assim! Mas do lado de cá a pegada é outra e não sei se estou tão disposta para mais um desgaste imposto pela conjuntura: correr para dar o meu melhor e no final escorregar na pista e ser pisoteada pelos ditos "mais espertos".

Não se trata de desistir dos sonhos e cruzar os braços. Até porque não nasci rica e o que meu esposo ganha quando está trabalhando não supre todas as nossas necessidades. Mas dizer que é complicado, disso não tenho dúvida!



sexta-feira, 6 de maio de 2016

Graduação em Serviço Social: a cada dia vale mais a pena


Imagem do Google: http://migre.me/tHTnT



Em 2010, conheci o Curso Popular de pré-vestibular Quilombo Do Orobu. Espaço qual, ao longo desses quase 6 anos de vivência, vem me mostrando alguns dos instrumentos necessários para uma formação cidadã, consciente, libertária e representativa no sentido das questões ali discutidas, refletidas coletivamente.


Foi a partir daquele espaço que optei por um curso qual, dialoga direta e/ou indiretamente com as inquietações provocadas nas mentes de pessoas que compreendem esta sociedade como meio de possibilidades, contudo, cheia de contradições e obstáculos, sobretudo, para quem faz parte da classe social economicamente desfavorecida, já predestinadas (nas mentes de um determinado grupo social), a viver em condições de subserviência, principalmente em função da sua orientação sexual, geração, e, dentre outros marcadores sociais, em particular, pela cor da sua pele.


Contrariando o racismo e o público elitista de uma sociedade que volta o seu discurso para a ideia de MERITOCRACIA como única possibilidade de alcançar os objetivos da vida, sem levar em conta que OPORTUNIDADES são relevantes para almejar determinados sonhos,  refiro-me ao curso de Graduação em Serviço Social da Universidade Federal da Bahia, que desde o segundo semestre de 2012, período qual ingressei nesta Universidade, vem contribuindo para reforçar ainda mais o quanto estamos aquém de vivenciar uma realidade social onde todos/as  tenham, de fato, seus direitos fundamentais respeitados, conforme preconizado pela Constituição Federal de 1988.


A medida que o tempo passa, compreendo que minha escolha profissional não desaponta minhas expectativas do ponto de vista  daquilo que ainda falta para estarmos no topo das conquistas, ou seja, não se trata de uma profissão que está para dar conta de todas as demandas (riscos sociais) emergentes na sociedade. Escolher fazer parte desta categoria profissional, é entender, antes de tudo, que não somos salvadores/as da Pátria, e, portanto, temos limitações desde a formação que dependem de docentes, discentes, técnicos administrativos, do poder público e da sociedade civil para serem ultrapassadas.

Posto isto, acredito que a nota máxima destinada ao nosso curso pelo Ministério da Educação (MEC) reflete os encantos e desafios desta formação/profissão, uma vez  que aumenta sim a nossa responsabilidade e compromisso em aprimorar cada vez mais o processo organizativo, formativo e  sociopolítico do nosso curso, seja em Universidade pública,particular ou á distância.

Esclareço a tempo que não se trata de uma responsabilidade que pesa, mas sim, daquela que reflete o referencial que nos tornamos, com visibilidade a nível nacional, demonstrando que somente na luta coletiva somos capazes de levantar a taça da vitória.

Reflete, portanto, o respeito, a qualidade e responsabilidade da formação nos termos dos princípios do Código de ética profissional, ainda que as condições de trabalho e de estudos não estejam dentro do ideal.

Por isso, sou ainda mais orgulhosa em fazer parte deste curso,cujo número considerável é de estudantes negros/as, que vivenciam realidades duras de vida em busca de transformação e  protagonizam, aos trancos e barrancos suas histórias.

Que continuemos mobilizados/as por uma formação comprometida com a  ética, liberdade, democracia e equidade.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Processo de escolha unificado para membro do Conselho Tutelar de Salvador Quatriênio 2016-2019: Reflexão por dentro

Após análise de documentos, realização de uma prova com 50 questões de múltipla escolha com conteúdo a respeito do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990), o  processo unificado de escolha para o Conselho Tutelar finaliza-se para mim.

Infelizmente não foi possível passar pela etapa eleitoral, embora 115 pessoas tenham dedicado parte da sua vida em 06 de Dezembro de 2015 para fortalecer comigo neste processo, a quem agradeço imensamente. Acesso aqui o RESULTADO.

As limitações foram várias do ponto de vista organizativo, mas também, e não menos importante, embora muitas pessoas não tenham conseguido votar por outras razões, não dá para desconsiderar a restrita consciência política de parte da sociedade civil no tocante a sua legitimidade de escolher quem deve ocupar o Conselho Tutelar, enquanto sujeito/a social, e a respeito do papel relevante atribuído ao Conselheiro/a, 


A eleição foi marcada por  interesses de ordem pessoal; bocas de urnas;  translado; altos investimentos dos setores políticos partidários para a intensiva propaganda de alguns/umas candidatos/as; publicação tardia dos locais de votação e mecanismos que facilitavam este acesso como site lançado para tal consulta, necessitando apenas do nome completo do/da eleitor/a através deste link (http://www.cmdca.salvador.ba.gov.br/eleicao/); mudança de local de votação em algumas zonas eleitorais sem chance de aviso prévio aos eleitores/as, sem falar da suspensão momentânea do processo eleitoral sem a devida brevidade, gerando assim, muitas incertezas para candidatos/as e eleitores/as que acompanharam o processo.


Na minha crítica e humilde análise enquanto Graduanda em Serviço Social, mãe e atuante na comunidade de Cajazeiras por meio do trabalho social realizado junto a adolescentes e adultos/as, soma-se a tudo isso o fato de que o processo de escolha ainda apresenta outros limites gritantes, quais não determinam o perfil adequado de profissionais que devem ocupar um espaço institucional como o Conselho Tutelar, uma vez que, certamente, não é apenas a realização de uma prova de múltipla escolha seguida de uma eleição que vão definir as características  pertinentes para a atuação em casos tão subjetivos e complexos demandados pela comunidade.

Além disso, este pleito é questionável e ao mesmo tempo contraditório, dada a realidade de que, pelo menos em minha experiência de vida, aos 29 anos de idade, nunca vivenciei o diálogo entre Conselho Tutelar e comunidade, conforme previsto em seu Regimento Interno, em termos de democratização da informação:

Divulgar o Estatuto da Criança e do Adolescente através de seminários, palestras, boletins informativos e outros, integrando-se às ações do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente- CMDCA. (Resolução nº 001.2009, Art. 10º, II CMDCA SALVADOR).


Este processo evidencia, portanto, muitas fragilidades, consequente de toda uma conjuntura política ainda pautada no aparelhamento institucional, que muni-se de recursos que só aprofundam as desigualdades sociais, acumuladas e manifestas nas mais várias formas de pobreza, miséria, desemprego e exclusão. Percebe-se que não há ampla democratização de participação popular, o que é notável nas falas de surpresa das pessoas no tocante ao desconhecimento de que os/as Conselheiros/as são eleitos/as pelo povo. 


Além disso, é evidente o quanto muitas pessoas não tem apropriação de que o Conselho Tutelar é um órgão essencial ao Sistema de garantia de direitos, cujo motivo é também legitimado pelo voto facultativo, tendo como consequência a não seguridade da participação de todos/as.


Não digo com isso que a obrigatoriedade é a forma adequada para tanto. Acredito mesmo é na sensibilidade política das pessoas mediante tantas questões sociais que nos tornam cada vez mais vulneráveis às várias formas de violências como de gêneros e étnico-raciais.


Por essas e outras, a esperança é que os Conselhos Tutelares de Salvador não permaneçam tombados por setores quais atuam sem perspectiva de transformação social para as crianças e adolescentes, bem como para suas famílias, em sua maioria negros e negras,  e que a partir de então, a mobilização do ponto de vista do controle social seja feito pela comunidade em relação aos novos eleitos/as, a quem desejo muito sucesso, comprometimento e responsabilidade para intermediar os direitos sociais ao seu público, neste mandato de 2016-2019.

Sem a intenção de esgotar por aqui a reflexão, concluo reiterando que a experiência foi mais que válida e importante para mim e fico feliz porque estou certa de que, apesar da falta de capital político,  não faltou amadurecimento para aceitar e enfrentar mais este desafio.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

E quando o racismo afeta as nossas crianças negras?


Aí você está com uma criança em seu ventre, cheia de amor para dá, super empolgada com a gravidez, entra no facebook e se depara com o relato abaixo (texto compartilhado no grupo público UFBA).

Gabriel Davi compartilhou a publicação de Gaby Nunes.
1 h · Editado
O negoço é esquecer e não reagir, deixar pra lá... Ou não?
Hoje, 9/9/2015, ano em que amam dizer que vivemos uma democracia racial, eu fui no banheiro do curso de inglês e encontrei uma menina de 6 anos sentada no canto e chorando, eu fui perguntar se ela tava passando mal ou algo, ela disse que não, daí eu disse que ela era muito bonita pra ficar chorando e ela chorou mais e me disse que na turma de inglês dela tinham eleito ela a mais feia da sala, que tinha cara de faxineira, cabelo ruim e nariz de tomada(sim crianças de 6 anos fizeram isso) e ela chorando me disse "não entendo por que me acham tão feia assim, eu não sei por que eles não gostam de mim, eu nunca fiz nada pra eles" eu desabei olhando pra ela chorar e me falar aquilo, vocês tem noção dessa violência? Ali eu me vi, e vi inúmeras meninas negras que passaram pela mesma situação, eu chorei por mim e por ela, por todas nós, que tão cedo não sabemos o que tem de errado com a gente. E falei que ela era linda, mandei ela segurar meu cabelo e ver como era enroladinho que nem o dela e que eu e ela eramos lindas assim. Depois claro fui fazer barraco na secretaria e ligar pra mãe dela pra mãe dela tomar providências, sabem o que a mãe dela disse? Pra ela parar de drama, sabem por que a mãe dela disse isso? Por quê vivem dizendo o quanto somos obrigados a aceitar, porquê o discurso de Morgan Freeman que amam gritar aos 4 ventos diz que não devemos reagir e não falar no assunto que ele se resolve, a não reação travestida de pacifismo nos exige aguentar calados enquanto cultivamos auto ódio, o assunto que vocês prometem se resolver sozinho perdura por longos anos atingindo a inocêcia de nossas crianças negras, orientaram ela a ficar calada, afinal é brincadeira não é mesmo? E nem venham me dizer o quanto estão chocados por crianças fazerem isso por que fazem por anos, e todo mundo sabe, e fazem por causa de vocês, do seus sistema racista e sujo do início ao fim que acha normal ver preto na rua, que mostra negra como serviçal e pedaço de carne e gisele's como como lindas, brancas de neves como princesas, e que quando colocam as poucas negras na mídia que sejam o mais embranquecidas possível, que normaliza a população negra em sub empregos e demoniza e nos afasta de toda a cultura preta e apaga nossa história(pasmem temos uma história antes de nos escravizarem). Antes de chorarem as dores dessa menina saibam que ela não vem do nada, vem desse sistema racista que a maioria apoia e bate palma, reveja inclusive suas atitudes diárias. Enquanto isso lamento profundamente mas não abaixo a cabeça, respondo e grito bem alto que RACISMO NÃO PASSARÁ !!!
SALVEM A INOCÊNCIA DE NOSSAS CRIANÇAS!

O que fazer? Ficar chocada? Se indignar sem nenhuma outra perspectiva? Chorar? Se desesperar achando que não vai mais dá para educar sua bebê da maneira como previa?

Não, cara pálida! Estou me empoderando mais e mais para fortalecer a minha filha que, certamente, infelizmente! passará por isso.

Aí alguém pode perguntar: Mas Gilmara, você acha mesmo que Shaira Cristal passará por isso?

Ora, é muita ingenuidade acreditar que em um país que sobreviveu e ainda sobrevive ás custas da secular escravização, em particular do povo negro, não vá reproduzir seu ato insano de discriminar a minha garota por ser negra - acho pouco provável que não seja negra já nós, seus pais somos.

É muita ingenuidade acreditar que seus traços não servirão de chacota para outras crianças que são criadas sem um mínimo de consciência que contrarie tal ato.

Há quem diga até que criança é criança e por está se descobrindo comete "equívocos" sem pensar. Ocorre que, você há de convir comigo que o dito "equívoco" (para quem quer acreditar nesta justificativa), deprecia quem o recebe, gera fortes impactos negativos que refletem na sua auto estima, cria a crença de que de que a inferioridade faz mesmo parte da sua rotina e, portanto, não há o que fazer a não ser aceitar. Vem sempre na tentativa de fortalecer a ideia de que a aceitação pacífica é o melhor caminho para resolver o problema, ou seja, ignore, faça de conta que não é com você. Além disso, não mais se trata de racismo, não é? É o tal do Bullying, termo que para muitos/as causa uma impressão de suavidade e, portanto, de não ofensa.

Mas veja o significado do próprio termo: Bullying é um termo de origem inglesa (bully = "valentão") que se refere as formas de atitudes agressivas, verbais e físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade de ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças e poder ( Mais informações).

O racismo bem como todas as outras formas de opressão que se expressam por conta da nossa aparência, estética, modo de falar, andar e tudo mais, que não se enquadra no padrão hegemônico do tipo nariz afiladinho, lábios finos, cabelos lisos, cor de pela não negra etc e tal, não descansam. Nem mesmo quando somos crianças. Nem mesmo quando estamos nesta fase da vida onde muitos/as dizem que é a fase mais ingênua e feliz. E aí é que mora o problema porque é muito particular da população brasileira de um modo geral usar das sutilezad para discriminar. Aqui o racismo  velado é o mais comum e por isso mesmo perverso. É manifestado, na maioria das vezes, com um tom de brincadeira e do "não foi bem assim" ou ainda "você fez interpretação equivocada".

Ah, deixa disso!

Pára com esta hipocrisia de que vivemos em uma democracia racial!

É claro que não desconsidero os avanços alcançados, sobretudo, a partir da luta do nosso próprio povo negro por melhores condições de vida, pela criação de instrumentos legais como o Estatuto da Igualdade Racial , que nos respalda em casos frequentes de racismo. Contudo, não nos livra de sermos os alvos preferidos. Também não acredito que as crianças são exclusivamente culpadas. Aliás, a intenção não é encontrar um culpado, afinal vivemos em uma sociedade muito bem estruturada e organizada para alimentar a ideologia de que existe grupos inferiores e superiores, cujo quesito raça/cor é determinante para fazer parte do primeiro. E as crianças, neste caso, são usadas como instrumentos de reprodução desta crença.

Por isso mesmo minha filha será ensinada a valorizar seu pertencimento racial para enaltecer a sua auto estima, independente do espaço qual esteja. Como? Já começa pelo seu primeiro nome. Shaira é um nome de origem Africana (Nigéria) e significa Poetisa. Além disso, seu papai e eu selecionamos várias historinhas e filmes afro-infantis que reafirmarão suas raízes. Sem discurso acadêmico, usaremos sim a linguagem acessível para o seu entendimento e mostraremos, portanto, que a fase de formação e descobrimentos, mesmo ainda criança, não legitima atos racistas, pois é tudo muito direcionado e cheio de intencionalidade que não passa a mão pela cabeça e não alivia.

É isso.




sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Turbilhão de sentimentos e a memória ancestral...


Nesta semana tenho vivido uma mistura de sentimentos que ficarão eternamente enraizados em minha memória.

É uma mistura de alegrias por ter uma princesa dentro de mim prestes a chegar a este mundo, que mexe e remexe em meu ventre e faz transbordar as mais indescritíveis alegrias em minha vida. Outra razão mais que satisfatória é que nesta data, exatamente neste momento que escrevo minha mãe oficializa o seu laço matrimonial com quem  ela escolheu para viver e partilhar suas alegrias e tristezas, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, conforme pressupõe a fala de quem conduz este momento tão especial nas vidas das pessoas, independente da religião.

Contudo,  paralelo a estes sentimentos de satisfação, alegrias, orgulho e prazeres, há a dor da perda de alguém também muito especial para mim, familiares e amigos. Minha bisavó, Maria Francisca Arcanjo, aos 109 anos nos deixou. Há controvérsias quanto a sua idade porque já foram encontrados dois documentos com anos de nascimento diferentes, mas, a esta altura do campeonato, isto aí é só um detalhe.

Se foi a mulher guerreira, de origem indígena, que até quando a doença ainda não havia lhe acometido, ela prezava por suas raízes e disseminava a ancestralidade por onde passava por meio das várias rezas que aprendera do seu antepassado. Prezava assim, pelas práticas populares de cura reconhecidamente aprovada  pela comunidade onde morava naquele interior qual sou originária chamado Ubaitaba, cidade pequena do Sul da Bahia.

Contrariava então, a imposição científica que muitas vezes reluta em acreditar na medicina alternativa, embora esta já esteja vinculada ao sistema público de saúde em algumas localidades do país.

E por quê é tão importante ressaltar o fato de que ela rezava? Nada mais nada menos porque historicamente o saber popular dos povos negros e indígenas foram e ainda são discriminados neste "Estado Laico" e  "democrático".  Não é atoa que em 2014 foi instituído o Estatuto da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa que, dentre outros pontos relevantes, reconhece e demarca a importância da atenção á saúde da população negra por meio também da religião. E tanto para a população indígena quanto negra, é histórica a imposição da religião cristã, hegemônica no país.

Quantas vidas foram e permanecem sendo ceifadas pelo desrespeito e intolerância religiosa neste país, em particular aqui na Bahia? Muitas!!! Quantos terreiros de candomblé já foram fechados e são invadidos e destruídos? Nem se fala! É o racismo que provoca esta e outras intolerâncias que são vivenciadas por nós a todo momento em vários pontos deste país. 

Portanto, não dá para relembrar de Mãe Velha, assim nós a chamávamos, sem tocar neste ponto crucial que foi para ela e para nós. Acreditava na força da natureza e por isso também era reconhecida por todos onde morava como Dona Maria Rezadeira. Sempre vaidosa, adorava usar chapeuzinhos na cabeça combinando com suas roupas. Gostava muito de gatos e quando morava sozinha tinha mais de 5 em sua casa.

Chegamos a nos ver em Abril deste ano. Viajei para visitá-la, pois sabia que estava muito doente e chamava por seus netos/as e bisnetos/as, estando todos residindo aqui em Salvador. Não poderia deixar de atender ao seu pedido, pois quando morremos não há mais nada a fazer.

E assim aconteceu em 12 de Agosto de 2015, há dois dias ela deixou saudades. Deixou como legado a sabedoria,  sua  vitalidade e altivez que devemos tomar como exemplo sempre.

Não quis viajar para o interior e vê-la na condição de morta. Prefiro guardar em minha memória a lembrança do seu sorriso, do seu olhar vivo e profundo que, embora não tenha me reconhecido em consequência das limitações provenientes dos seus vários problemas de saúde e naturalmente pelos resquícios da alzheimer pelo avançar da idade, sabia que estava ao seu redor o seu povo se referindo a mim, meu pai e minha tia que viajamos juntos para vê-la.


Ela dizia: "não sei teu nome, mas sei que é tudo meu povo, é tudo minha raça."

Foto do acervo pessoal


terça-feira, 28 de julho de 2015

Casamento: a racialização como fator determinante



Escrevi este texto em Fevereiro de 2014 em um blog coletivo. Resolvi reeditar e publicar aqui.

Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do Censo 2010, comprovou que 70% dos casamentos no Brasil ocorrem entre pessoas da mesma cor e que as mulheres pretas (7% da população) são as que menos se casam.

Ainda segundo a pesquisa, a questão da cor se apresenta como um dos fatores determinantes para que homens e mulheres negros não sejam os "escolhidos/as" como parceiros/as "adequados/as" para uma relação mais séria, que envolve convivência, respeito, afeto, aceitação, entre outras coisas que são imprescindíveis para uma vida matrimonial saudável. 

No entanto, quando alguém diz que o Brasil é um país racista, muita gente retruca e se sente até ofendida, já que aqui há uma mistura de raça, onde as pessoas conseguem viver em plena harmonia justamente por conta desta miscigenação - há quem diga, inclusive, que isto é o que caracteriza fortemente o nosso país! Portanto, é loucura dizer que negros não casam com brancos, ou que brancos só gostam de casar com as pretinhas porque são muito quentes.

Os dados mostram que geralmente as pessoas brancas casam com brancas porque, entre outros fatores, são as que estão em posição social mais favorável do ponto de vista da educação, já que, em sua maioria, podem acessar um ensino de qualidade e dar continuidade na busca de conhecimento especializado; da sua condição financeira, considerando que as oportunidades de emprego não são as mesmas para brancos e pretos neste país. E quando ocorre o contrário, que é a pessoa negra casando-se com uma branca, isto é associado à "esperteza" do negro que usa deste instrumento (o casamento) para mudar de status ou para ser aceito na sociedade.

Sendo assim, é preciso (re) pensar os dados apresentados nesta pesquisa, considerando o fato de que negros e negras historicamente são colocados/as em posição de subalternidade, causando impactos nas relações interpessoais e amorosas, "não sendo pessoas consideradas para casar", apenas útil para o sexo, para o bel prazer, "para ficar", para satisfazer os desejos sexuais daquele e daquela que insiste em afirmar "que o sexo com negros e negras é mais gostoso", e, portanto, seu corpo só serve para isto. 

Neste sentido, fica evidente que tratar da sensualidade de homens e mulheres negros perpassa por estigmas, preconceitos, enganos que marcam fortemente as nossas vidas  por conta dos marcadores (gênero, étnicos, raciais, sexuais, etc.) que são mais evidenciados do que nossas potencialidades enquanto sujeitos sociais. Tais marcadores ferem a autoestima porque nega o que existe de positivo em nossas relações interpessoais, fazendo com que muitos homens e mulheres negras sintam, inclusive, que em suas vidas não existe amor e se existe, é pouco.

Vale chamar a atenção para a ideia deste texto que não é reforçar o vitimismo, até porque o racismo não nos permite ser vitimistas e sim vítimas da perversidade social. Mas é importante trazer para a reflexão questões que muitas vezes passam despercebidas, para que acreditemos que vivemos em uma país que pratica a tal da "democracia racial", e portanto, não há a necessidade de levantar bandeira para problematizar. Por exemplo, Freyre (1930), acreditava na ideia de que haveria no Brasil uma convivência pacífica das etnias, e que todos teriam as mesmas chances de ascender socialmente:

"[...] A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que de outro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala. O que a monocultura latifundiária e escravocrata realizou no sentido de aristocratização, extremando a sociedade brasileira em senhores e escravos, com uma rala e insignificante lambujem de gente livre sanduichada entre os extremos antagônicos, foi em grande parte contrariado pelos efeitos sociais da miscigenação. A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha, [...], agiram poderosamente no sentido de democratização social Brasil."
(pág. 16 ).

Contudo, os resquícios da escravização impactam nas vidas de brancos e negros de formas diferentes neste país, onde, para o segundo, o agir democraticamente em relação ao diferente proposto por Freyre, não acontece de forma voluntária, mas, sobretudo, forçado por leis que obrigam o primeiro a perceber que o respeito deve ser uma prática para todos, independente de qualquer condição.


E você, o que acha disto? Reflita e se inquiete a vontade...

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Os corpos das mulheres negras também geram vidas com amor



Salvador, 24 de Julho de 2015

Após mais de um ano, resolvi publicar este texto, a partir da rica e divertida conversa com a camarada Paula Libence, que também tem um blog – o Escrevivência.

Aqui está:

Como será a reação de quem não esperava ver uma mulher negra, casada, estudante universitária, militante, prestes a ter um filho e ser tão amada? Saber que seu corpo não se restringiu ao mero sexo?

Embora este também seja bom e necessário para deixar nossos corações felizes.

Estas são perguntas que me faço em tempos de  manifestações diuturnas de racismo. Racismo este que é semelhante a porta batendo em nossa cara, em que as pessoas, também influenciadas pela vasta literatura (Casa Grande e Senzala do Gilberto Freyre é uma clássica!), contrariam a nossa capacidade de amar e ser amada porque somos negras e demonstram insatisfação quando não nos enquadramos à concepção perversa de que somos objetos sexuais.

A pessoa a quem me refiro no início deste texto sou eu, e certamente muitas outras mulheres negras que vivem realidade igual ou semelhante à minha.

Dizem que nossos corpos se restringem meramente ao sexo, porque o tudo "ÃO" em nós chama a atenção e estimula os paus de muitos machistas por aí. Dizem ainda que não fomos feitas para casar e sim para foder (Gilberto Freyre que o diga...). Este link dá acesso a ótimas contribuições sobre o assunto: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000436695. Trata-se da tese de Ana Claudia Lemes Pacheco, “Branca para casar, mulata para f..., negra para trabalhar: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador, Bahia”.

Ocorre que venho contrariar estas estatísticas e relato com muita satisfação como um gozo longuíssimo, que minha vida é diferente do esperado por muitxs! Furei esse cerco perverso que nos diz a todo o momento qual o nosso lugar. O cerco que limita nossa capacidade de amar e de ser amada, de ser feliz, de relacionar-se de forma digna e sincera com quem quer que seja. Essa não é a trajetória traçada para nós, mulheres negras.

Ser mulher negra, em uma sociedade patriarcal, machista, racista, sexista, homofóbica, dentre outras formas de opressão, e enviesada pelo racismo no tecido da nossa sociedade nunca foi tarefa fácil para nós. Então, costumo dizer que matamos leões por dia, "leões interseccionais" (refiro-me, metaforicamente, às várias formas de opressão que lidamos todos os dias, já citadas no início deste parágrafo)  que não cansam de avançar para cima de nós cheios de vontade de nos devorar. Devorar nossa moral, nossa personalidade, nossos desejos, nossos sonhos. Querem nos consumir e nos tornar consumistas de coisas fúteis, mas não querem nos deixar ser felizes, seguir adiante e mudar nossas histórias. Estão mal acostumadxs a ferir a nossa autoestima e nos julgam pela cor da nossa pele, classe social, gênero, dentre outros marcadores sociais.

Então, sinto informar. Aliás, é um prazer afirmar que, aos 28 anos de idade, sou casada há 7 anos e amada há 10 pelo mesmo homem. Ganhei há 19 semanas e 5 dias o privilégio de ser mãe e esta é uma sensação inesquecível e incondicional! Esta vida foi gerada com amor, respeito, carinho, cuidado e a cada segundo é amada e protegida por nós.

Imagem: Blog A Província


Portanto, como mulher negra não aceito as estatísticas que inserem a mulher negra no biotipo da mulata do tipo exportação muito bem retratada no poema de Elisa Lucinda (http://www.escolalucinda.com.br/bau/mulataexportacao.html) e, por isso, reafirmo que somos sim amadas, respeitadas, bonitas por dentro e por fora. Somos sim inteligentes, intelectuais, sábias e amigas. Contrariamos sim o discurso distorcido e limitado de que nossa sensualidade se restringe ao corpo.

É preciso que parte da sociedade racista e sexista perceba que também buscamos conquistas pessoais e profissionais, e isso não se remete unicamente à sensualidade dos nossos corpos. Está além disso e este critério não se aplica quando se trata de mulheres negras, pois tudo é conquistado e não doado. E no tocante a relacionamentos sérios, também buscamos por pessoas cujo respeito e carinho sejam recíprocos.


Merecemos respeito!