terça-feira, 28 de julho de 2015

Casamento: a racialização como fator determinante



Escrevi este texto em Fevereiro de 2014 em um blog coletivo. Resolvi reeditar e publicar aqui.

Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do Censo 2010, comprovou que 70% dos casamentos no Brasil ocorrem entre pessoas da mesma cor e que as mulheres pretas (7% da população) são as que menos se casam.

Ainda segundo a pesquisa, a questão da cor se apresenta como um dos fatores determinantes para que homens e mulheres negros não sejam os "escolhidos/as" como parceiros/as "adequados/as" para uma relação mais séria, que envolve convivência, respeito, afeto, aceitação, entre outras coisas que são imprescindíveis para uma vida matrimonial saudável. 

No entanto, quando alguém diz que o Brasil é um país racista, muita gente retruca e se sente até ofendida, já que aqui há uma mistura de raça, onde as pessoas conseguem viver em plena harmonia justamente por conta desta miscigenação - há quem diga, inclusive, que isto é o que caracteriza fortemente o nosso país! Portanto, é loucura dizer que negros não casam com brancos, ou que brancos só gostam de casar com as pretinhas porque são muito quentes.

Os dados mostram que geralmente as pessoas brancas casam com brancas porque, entre outros fatores, são as que estão em posição social mais favorável do ponto de vista da educação, já que, em sua maioria, podem acessar um ensino de qualidade e dar continuidade na busca de conhecimento especializado; da sua condição financeira, considerando que as oportunidades de emprego não são as mesmas para brancos e pretos neste país. E quando ocorre o contrário, que é a pessoa negra casando-se com uma branca, isto é associado à "esperteza" do negro que usa deste instrumento (o casamento) para mudar de status ou para ser aceito na sociedade.

Sendo assim, é preciso (re) pensar os dados apresentados nesta pesquisa, considerando o fato de que negros e negras historicamente são colocados/as em posição de subalternidade, causando impactos nas relações interpessoais e amorosas, "não sendo pessoas consideradas para casar", apenas útil para o sexo, para o bel prazer, "para ficar", para satisfazer os desejos sexuais daquele e daquela que insiste em afirmar "que o sexo com negros e negras é mais gostoso", e, portanto, seu corpo só serve para isto. 

Neste sentido, fica evidente que tratar da sensualidade de homens e mulheres negros perpassa por estigmas, preconceitos, enganos que marcam fortemente as nossas vidas  por conta dos marcadores (gênero, étnicos, raciais, sexuais, etc.) que são mais evidenciados do que nossas potencialidades enquanto sujeitos sociais. Tais marcadores ferem a autoestima porque nega o que existe de positivo em nossas relações interpessoais, fazendo com que muitos homens e mulheres negras sintam, inclusive, que em suas vidas não existe amor e se existe, é pouco.

Vale chamar a atenção para a ideia deste texto que não é reforçar o vitimismo, até porque o racismo não nos permite ser vitimistas e sim vítimas da perversidade social. Mas é importante trazer para a reflexão questões que muitas vezes passam despercebidas, para que acreditemos que vivemos em uma país que pratica a tal da "democracia racial", e portanto, não há a necessidade de levantar bandeira para problematizar. Por exemplo, Freyre (1930), acreditava na ideia de que haveria no Brasil uma convivência pacífica das etnias, e que todos teriam as mesmas chances de ascender socialmente:

"[...] A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que de outro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala. O que a monocultura latifundiária e escravocrata realizou no sentido de aristocratização, extremando a sociedade brasileira em senhores e escravos, com uma rala e insignificante lambujem de gente livre sanduichada entre os extremos antagônicos, foi em grande parte contrariado pelos efeitos sociais da miscigenação. A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha, [...], agiram poderosamente no sentido de democratização social Brasil."
(pág. 16 ).

Contudo, os resquícios da escravização impactam nas vidas de brancos e negros de formas diferentes neste país, onde, para o segundo, o agir democraticamente em relação ao diferente proposto por Freyre, não acontece de forma voluntária, mas, sobretudo, forçado por leis que obrigam o primeiro a perceber que o respeito deve ser uma prática para todos, independente de qualquer condição.


E você, o que acha disto? Reflita e se inquiete a vontade...

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Os corpos das mulheres negras também geram vidas com amor



Salvador, 24 de Julho de 2015

Após mais de um ano, resolvi publicar este texto, a partir da rica e divertida conversa com a camarada Paula Libence, que também tem um blog – o Escrevivência.

Aqui está:

Como será a reação de quem não esperava ver uma mulher negra, casada, estudante universitária, militante, prestes a ter um filho e ser tão amada? Saber que seu corpo não se restringiu ao mero sexo?

Embora este também seja bom e necessário para deixar nossos corações felizes.

Estas são perguntas que me faço em tempos de  manifestações diuturnas de racismo. Racismo este que é semelhante a porta batendo em nossa cara, em que as pessoas, também influenciadas pela vasta literatura (Casa Grande e Senzala do Gilberto Freyre é uma clássica!), contrariam a nossa capacidade de amar e ser amada porque somos negras e demonstram insatisfação quando não nos enquadramos à concepção perversa de que somos objetos sexuais.

A pessoa a quem me refiro no início deste texto sou eu, e certamente muitas outras mulheres negras que vivem realidade igual ou semelhante à minha.

Dizem que nossos corpos se restringem meramente ao sexo, porque o tudo "ÃO" em nós chama a atenção e estimula os paus de muitos machistas por aí. Dizem ainda que não fomos feitas para casar e sim para foder (Gilberto Freyre que o diga...). Este link dá acesso a ótimas contribuições sobre o assunto: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000436695. Trata-se da tese de Ana Claudia Lemes Pacheco, “Branca para casar, mulata para f..., negra para trabalhar: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador, Bahia”.

Ocorre que venho contrariar estas estatísticas e relato com muita satisfação como um gozo longuíssimo, que minha vida é diferente do esperado por muitxs! Furei esse cerco perverso que nos diz a todo o momento qual o nosso lugar. O cerco que limita nossa capacidade de amar e de ser amada, de ser feliz, de relacionar-se de forma digna e sincera com quem quer que seja. Essa não é a trajetória traçada para nós, mulheres negras.

Ser mulher negra, em uma sociedade patriarcal, machista, racista, sexista, homofóbica, dentre outras formas de opressão, e enviesada pelo racismo no tecido da nossa sociedade nunca foi tarefa fácil para nós. Então, costumo dizer que matamos leões por dia, "leões interseccionais" (refiro-me, metaforicamente, às várias formas de opressão que lidamos todos os dias, já citadas no início deste parágrafo)  que não cansam de avançar para cima de nós cheios de vontade de nos devorar. Devorar nossa moral, nossa personalidade, nossos desejos, nossos sonhos. Querem nos consumir e nos tornar consumistas de coisas fúteis, mas não querem nos deixar ser felizes, seguir adiante e mudar nossas histórias. Estão mal acostumadxs a ferir a nossa autoestima e nos julgam pela cor da nossa pele, classe social, gênero, dentre outros marcadores sociais.

Então, sinto informar. Aliás, é um prazer afirmar que, aos 28 anos de idade, sou casada há 7 anos e amada há 10 pelo mesmo homem. Ganhei há 19 semanas e 5 dias o privilégio de ser mãe e esta é uma sensação inesquecível e incondicional! Esta vida foi gerada com amor, respeito, carinho, cuidado e a cada segundo é amada e protegida por nós.

Imagem: Blog A Província


Portanto, como mulher negra não aceito as estatísticas que inserem a mulher negra no biotipo da mulata do tipo exportação muito bem retratada no poema de Elisa Lucinda (http://www.escolalucinda.com.br/bau/mulataexportacao.html) e, por isso, reafirmo que somos sim amadas, respeitadas, bonitas por dentro e por fora. Somos sim inteligentes, intelectuais, sábias e amigas. Contrariamos sim o discurso distorcido e limitado de que nossa sensualidade se restringe ao corpo.

É preciso que parte da sociedade racista e sexista perceba que também buscamos conquistas pessoais e profissionais, e isso não se remete unicamente à sensualidade dos nossos corpos. Está além disso e este critério não se aplica quando se trata de mulheres negras, pois tudo é conquistado e não doado. E no tocante a relacionamentos sérios, também buscamos por pessoas cujo respeito e carinho sejam recíprocos.


Merecemos respeito!