sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Turbilhão de sentimentos e a memória ancestral...


Nesta semana tenho vivido uma mistura de sentimentos que ficarão eternamente enraizados em minha memória.

É uma mistura de alegrias por ter uma princesa dentro de mim prestes a chegar a este mundo, que mexe e remexe em meu ventre e faz transbordar as mais indescritíveis alegrias em minha vida. Outra razão mais que satisfatória é que nesta data, exatamente neste momento que escrevo minha mãe oficializa o seu laço matrimonial com quem  ela escolheu para viver e partilhar suas alegrias e tristezas, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, conforme pressupõe a fala de quem conduz este momento tão especial nas vidas das pessoas, independente da religião.

Contudo,  paralelo a estes sentimentos de satisfação, alegrias, orgulho e prazeres, há a dor da perda de alguém também muito especial para mim, familiares e amigos. Minha bisavó, Maria Francisca Arcanjo, aos 109 anos nos deixou. Há controvérsias quanto a sua idade porque já foram encontrados dois documentos com anos de nascimento diferentes, mas, a esta altura do campeonato, isto aí é só um detalhe.

Se foi a mulher guerreira, de origem indígena, que até quando a doença ainda não havia lhe acometido, ela prezava por suas raízes e disseminava a ancestralidade por onde passava por meio das várias rezas que aprendera do seu antepassado. Prezava assim, pelas práticas populares de cura reconhecidamente aprovada  pela comunidade onde morava naquele interior qual sou originária chamado Ubaitaba, cidade pequena do Sul da Bahia.

Contrariava então, a imposição científica que muitas vezes reluta em acreditar na medicina alternativa, embora esta já esteja vinculada ao sistema público de saúde em algumas localidades do país.

E por quê é tão importante ressaltar o fato de que ela rezava? Nada mais nada menos porque historicamente o saber popular dos povos negros e indígenas foram e ainda são discriminados neste "Estado Laico" e  "democrático".  Não é atoa que em 2014 foi instituído o Estatuto da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa que, dentre outros pontos relevantes, reconhece e demarca a importância da atenção á saúde da população negra por meio também da religião. E tanto para a população indígena quanto negra, é histórica a imposição da religião cristã, hegemônica no país.

Quantas vidas foram e permanecem sendo ceifadas pelo desrespeito e intolerância religiosa neste país, em particular aqui na Bahia? Muitas!!! Quantos terreiros de candomblé já foram fechados e são invadidos e destruídos? Nem se fala! É o racismo que provoca esta e outras intolerâncias que são vivenciadas por nós a todo momento em vários pontos deste país. 

Portanto, não dá para relembrar de Mãe Velha, assim nós a chamávamos, sem tocar neste ponto crucial que foi para ela e para nós. Acreditava na força da natureza e por isso também era reconhecida por todos onde morava como Dona Maria Rezadeira. Sempre vaidosa, adorava usar chapeuzinhos na cabeça combinando com suas roupas. Gostava muito de gatos e quando morava sozinha tinha mais de 5 em sua casa.

Chegamos a nos ver em Abril deste ano. Viajei para visitá-la, pois sabia que estava muito doente e chamava por seus netos/as e bisnetos/as, estando todos residindo aqui em Salvador. Não poderia deixar de atender ao seu pedido, pois quando morremos não há mais nada a fazer.

E assim aconteceu em 12 de Agosto de 2015, há dois dias ela deixou saudades. Deixou como legado a sabedoria,  sua  vitalidade e altivez que devemos tomar como exemplo sempre.

Não quis viajar para o interior e vê-la na condição de morta. Prefiro guardar em minha memória a lembrança do seu sorriso, do seu olhar vivo e profundo que, embora não tenha me reconhecido em consequência das limitações provenientes dos seus vários problemas de saúde e naturalmente pelos resquícios da alzheimer pelo avançar da idade, sabia que estava ao seu redor o seu povo se referindo a mim, meu pai e minha tia que viajamos juntos para vê-la.


Ela dizia: "não sei teu nome, mas sei que é tudo meu povo, é tudo minha raça."

Foto do acervo pessoal