quinta-feira, 6 de abril de 2017

Mercado de trabalho X perfil

Há pouco mais de um ano não escrevia em meu blog.

Estava aqui pensando o quanto mudanças diversas em nossas vidas interferem também na possibilidade de leituras e escritas.  Mas isso não é por falta de ideias, não é por falta de tantas coisas que penso que não escrevo. É também por falta de tempo.

Mas vamos lá.

Vou tentar compartilhar um pouco da comum realidade entre muitas/os brasileiras/os: estou parte da estatística de desempregados no Brasil há mais de 4 anos.

A ultima vez que atuei dentro da formalidade prevista na Consolidação das Leis do Trabalho - CLT como trabalhadora foi em 2012, em uma empresa de Call Center, onde vendi minha força de trabalho durante 3 anos e 8 meses (naquela época ainda não tinha noção deste termo "força de trabalho").

Aí, depois daquele tempo, na tentativa de reinserção ao mercado de trabalho, aos 30 anos de idade, me deparo com questões ainda mais complicadas: o marcador "geração", a bendita "faixa etária", já não mais convém para o mercado de trabalho que temos, porque este precisa de JOVEM APRENDIZ, pessoas abertas para o aprendizado, inovadoras, criativas, porém, com algumas condições: assumir uma carga horária razoável, cumprindo funções como funcionário efetivo da empresa, no entanto, recebendo uma remuneração que está bem distante de reconhecer a exploração e fragilização desta lógica neoliberal de contratações.

Paralelo a esta reflexão, é tão perturbador e ao mesmo tempo, aliviador (se é que esta palavra existe) saber que em 2017, sendo mãe, graduanda em Serviço Social, com o pé já no finalzinho do curso, o mercado de trabalho também não tem o perfil para me receber. Pois é: sem a intenção de ser pretensiosa, vejo que na verdade, é o perfil do senhor mercado de trabalho que não se adequa ao meu, haja vista que gosto de trabalhos dinâmicos, com direcionamento favorável à classe trabalhadora, vulnerável social e economicamente.

Talvez, para algumas pessoas eu esteja blefando ao escrever isso, já que é é tão difícil ter trabalho, aliás, emprego. Mas é que gostaria muito de poder voltar a este mercado e realizar coisas que façam sentido para minha vida. Que sejam reflexos positivos do que venho tentando construir ao longo dos últimos 7 anos. O contato com tantas histórias de lutas, de resistências de jovens e adultos no Quilombo Educacional Quilombo do Orobu e toda a trajetória na graduação em andamento de Serviço Social não me permitem muito pensar de outra forma.

Será que o senhor mercado de trabalho está disposto a me receber sem cobrar 40 ou 44 horas semanais do meu tempo, para que eu consiga dar conta das minhas necessidades materiais (comer, beber, vestir...), mas também vivenciar minhas necessidades subjetivas com a minha família (curtir o lazer, a cultura, ter tempo para as nossas conversas e brincadeiras juntos) e ainda concluir meu nível superior?

Será que ele aguentaria alguém que questiona seu modus operandi torturador, estressante muitas vezes?

Será mesmo que o rei mercado de trabalho está disposto a abrir mão das suas cobranças de pontualidade, assiduidade mesmo tendo uma funcionária que enfrenta trânsito torturoso muitas vezes; cansada e indisposta por passar algumas noites em claro com a filha porque sente dor ao ter sua gengiva rasgando por conta de mais dentinhos para nascer, pelas febres eventuais, enfim: até que ponto eu é quem não me encaixo no perfil? 

Paralelo a isso, é  angustiante saber que, se antes era uma graduação que me distanciava de um emprego razoável,  que minimamente permita ter uma vida social e não só viver para o trabalho, tem também a cobrança por qualificações diversas, sempre em atualização, sempre gritando para você que alcançou X mas não atendeu a Y. 

É possível que esta não seja a sua realidade, cara/o leitor/a. Que massa se for assim! Mas do lado de cá a pegada é outra e não sei se estou tão disposta para mais um desgaste imposto pela conjuntura: correr para dar o meu melhor e no final escorregar na pista e ser pisoteada pelos ditos "mais espertos".

Não se trata de desistir dos sonhos e cruzar os braços. Até porque não nasci rica e o que meu esposo ganha quando está trabalhando não supre todas as nossas necessidades. Mas dizer que é complicado, disso não tenho dúvida!



6 comentários:

  1. Ótimo texto!! Eu q vivo diariamente com isso, apesar de satisfeita com o q faço, é angustiante ver o outro lado... Participar de seleções enormes, desgastantes e entrar em empresa q vc não vai poder criar o tanto vc desejou.
    É uma fronteira complexa. Mesmo não conseguindo criar, as pessoas se submetem às propostas por não terem nascido ricas e precisarem trabalhar. Poucas pessoas são satisfeitas com o q faz e tem realização nisso.
    E, o pior, eu vejo como um ciclo. As empresas querem qm crie, qm tenha autonomia, mas barram o colaborador na primeira oportunidade dele. É frustrante...

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    1. Nem me fale sobre essas seleções. Participei de algumas recentemente, e uma delas colocou em xeque a minha relação com a minha bebê e o trabalho. A criatura, entrevistadora perguntou "se sua bebê adoecer, como ficará o trabalho?". Perguntas assim existem para abalar o mais profundo da alma, eu acho. Fiquei bem irritada com a pergunta, embora reconheça que faz parte da estratégia para seletividade. Contudo, contraditoriamente, se trata de uma empresa que disponibiliza auxílio creche. Portanto, subentendo que a eliminação não deveria ter como razão o fato de ser mãe.

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    2. Usar a criança como critério de alguma seleção é desumano! Não concordo e não uso.imagino o q vc deva ter passado. 😧😧

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  2. A diminuição dá carga horária é algo lutado por profissionais e combatido pelo empresariado a ferro e fogo... Uma vez trabalhei numa empresa onde meu contrato era de 40h/ semanais, mesmo sendo muito,conseguia ter qualidade de vida pq era próximo de minha casa. Mas, por uma definição de qm manda (diretoria), meu contrato foi alterado para 44h, sem qq ajuste na remuneração... Só q não podia reclamar, precisava do emprego e acatei. Coisas que só qm está nessa labuta diária pra se submeter ao q é ser trabalhador nesse país.

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  3. Me identifico 100% com esse texto, não quero fazer longo come tário porque ando com angustiada a flor da pele, no que diz respeito a mercado de trabalho, 44 horas semanais, trabalhar com uma temática que não me interessa, atender as necessidades do sistema.

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    1. Pois é, Mari. É bem complicado não se identificar com aquilo que todos os dias tem que fazer. É uma obrigação e não satisfação no que faz. Terrível isso!

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